terça-feira, 11 de junho de 2013

AIKOS INDAGA: o que há sob a onda do MAR?

Por: Maria do Carmo Baltar

No dia 1º de março passado, com muito alarde, foi inaugurado o MAR, Museu de Arte do Rio de Janeiro, primeira obra do plano de revitalização da zona portuária da cidade, o chamado Porto Maravilha. Sob projeto dos arquitetos do escritório Bernardes & Jacobsen, o museu instala-se no Palacete Dom João VI, edifício eclético construído em 1916 para abrigar a Inspetoria dos Portos, Rios e Canais, tombado em 2000 pelo Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural, e no prédio vizinho, de linguagem modernista, no qual funcionara o Hospital da Polícia Civil e o Terminal Rodoviário Mariano Procópio. 


A proposta arquitetônica destinou diferentes funções do programa aos edifícios: no Palacete de generosos pés-direitos, as salas de exposição do museu; no prédio da antiga rodoviária, a Escola do Olhar, auditório, salas de exposição multimídia, além das áreas para administração e funcionários do complexo. Para cada edifício também se estabeleceu uma diretriz de intervenção. No prédio modernista, a intervenção redesenhou sua volumetria com a subtração do último pavimento para “equilibrar” a altura do conjunto, além da substituição das alvenarias de fechamento da fachada por perfis de vidro translúcido, segundo os autores, com o objetivo de tornar “(...) visível o sistema estrutural de colunas recuadas [...] revelando o pilotis”. No Palacete D. João VI, por outro lado, um contraditório conceito de restauração de um bem tombado foi empregado. Nas fachadas, uma minuciosa recuperação dos elementos decorativos foi empreendida, assim como a investigação de sua cor original, sob as inúmeras camadas de tinta, além da reconstituição volumétrica da cúpula central, já bastante danificada. Manteve-se a “casca”, com a total remoção das paredes internas e a construção de um núcleo central de serviços e circulações verticais, liberando os espaços para a proposta museográfica.
Os edifícios são interligados fisicamente por duas passarelas suspensas e, visualmente, por uma cobertura fluida, em forma de onda, que monumentaliza a obra. A cobertura, marca do projeto, estende-se sobre o terraço criado com a supressão do último pavimento do prédio modernista, seguindo sobre o Palacete eclético, induzido o olhar do visitante que aí necessariamente inicia seu percurso no museu, para uma vista da Baía da Guanabara. Grande desafio construtivo da obra, a laje simula a ondulação da água em concreto armado, possuindo dimensões de 66 x 25 m e 15 cm de espessura, com curvas desenhadas de maneira aleatória e desníveis de 1,5 m, apoiada sobre 37 pilares delgados.
 
As polêmicas sobre as diretrizes adotadas na intervenção, sua relação com a paisagem ou ainda seu papel dentro da Operação Urbana do Porto Maravilha, levantadas por técnicos de diversos setores do meio cultural, estão restritas, por ora, aos debates especializados. O surpreendente número de visitações ao MAR no primeiro mês após sua inauguração (mais de 60 mil visitantes) parece confirmar a idéia da construção de um novo ícone na cidade do Rio de Janeiro.


Para saber mais:
http://www.youtube.com/watch?v=OdG2d3Ns7KE&feature=youtu.be


quarta-feira, 15 de maio de 2013

AIKOS bilíngue: 2 buildings skin + bones

One market and one factory at Salvador – Bahia– Brasil
 
Ceila Cardoso
 
Modelo Market under construction, covered with an eclectic skin and burning on fire. Source: AZEVEDO, P. A Alfandega e o Mercado, Memoria e restauraçao, 1985.

The tissues’ factory Emporium Industrial do Norte (1892) and the Modelo Market (1911), at the ancient downtown, in Salvador, were two buildings with a metallic structure covered with an eclectic skin surface.
The principle of internal space’s flexibility, at the market and at the factory, were possible by the use of metal as a building material, indispensable at planning these free spaces of rhythmical pillars and zenithal lighting roofs. Its appearances were very different from outside.
At the end of nineteenth and beginning of the twentieth century, the iron's pre-fabricated architecture was brought to Bahia. Even with this innovative action, the “architecture of engineering” was understood by the academics and local population much more as an industry’s product than properly ‘architecture’.
It used to be entrusted to the architects, at this time, to draw the building's ornamented main façade as if it was a skin above the bones… The solid and ornamented dense façades, apart from function, should cover the skeletal and transparent interiors.
At Salvador, as elsewhere, there was resistance to the use of metal at the architecture, and, the technologic buildings on iron were qualified as something awful, aesthetically poor and inelegant.
Successive fires put down the building of the market and, even today, the innovative architecture of the Emporium has been gradually demolished to make room for speculative possibilities. Unfortunately, these wonderful pre-fabricated architectures in metal will not remain for the future generations to see, understand and enjoy it's magnitude.
The Salvador’s Industrial heritage, with these buildings and many others industrial buildings of the nineteenth century, will not anymore be lived in locun as a part of the complete city in time, or even as an isolated esthetic experience. They are at serious risk to no longer exist in a very short time.


Emporio Industrial do Norte - the fabric, its interiors, façade and aerial view. Source: UEFS - Fundação Pamponet Sampaio, 2002.
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2 arquiteturas peles + ossos
a Empório e o Mercado
A fábrica de tecidos Empório Industrial do Norte (1892) e o Mercado Modelo (1911), na cidade-baixa, em Salvador, abrilhantavam a cidade como exemplares de edifícios em estrutura metálica coberta com uma superfície de pele eclética.
O princípio da flexibilidade espacial, tanto no mercado, quanto na fábrica, foram possíveis pelo uso do metal como material construtivo, indispensável no planejamento estes espaços livres ritmados por pilares e com coberturas com iluminação zenital. As suas aparências eram bem diferentes quando vistas do lado de fora.
No final do século XIX e inicio do vinte a arquitetura pré-fabricada em metal foi trazida para a Bahia. Mesmo com essa inovação, a “arquitetura dos engenheiros” foi entendida pelos acadêmicos e pela população local muito mais como um produto industrial do que propriamente como arquitetura.
Era de praxe, a esta época, ser confiado aos arquitetos que desenhassem uma fachada ornamentada para os edifícios, como fosse uma pele sobre os ossos. As solidas, ornamentadas e densas fachadas, à parte a função, deveriam cobrir os esqueléticos e transparentes interiores.
Em Salvador, como em outras partes, houve resistência ao uso do metal na arquitetura, e os tecnológicos edifícios em ferro foram qualificados de ‘feios’, esteticamente pobres e deselegantes.
Incêndios sucessivos destruíram o Mercado e, nos dias de hoje, a inovadora arquitetura da Empório vem sendo gradativamente demolida, dando lugar a possibilidades especulativas. Infelizmente, estas fantásticas arquiteturas pré-fabricadas em metal não restarão para as gerações futuras verem, entenderem e apreciarem.
A herança industrial em Salvador, com esses edifícios e muitos outros edifícios industriais do século XIX, não restará para ser vivida in locun, na completude da cidade no tempo, ou mesmo sequer como uma experiência estética isolada. Correm o sério risco de não existirem mais em um tempo verdadeiramente muito curto.



domingo, 28 de abril de 2013

AIKOS PROSEIA: Da piedade às dores, a naturalização da santa de Aricobé[i]


Imagem de Nossa Senhora das Dores, atribuída aos índios aldeados na missão de Aricobé.




Ó Mãe de Jesus e nossa mãe, Senhora das Dores, nós vos contemplamos pela fé,
aos pés da cruz, tendo nos braços o corpo sem vida do vosso Filho.
Oração a Nossa Senhora das Dores


De quando em quando, num tempo que não é o nosso, ocorre um encontro no sertão do rio de São Francisco... Reúnem-se às margens do outrora opará, o rio-mar do nativo, as padroeiras e os oragos das antigas missões fundadas pelas mãos dos frades também de São Francisco, para discutirem os assuntos que dizem respeito ao que daquela messe, remanesce. Normalmente, é verdade, não são lá muito bons os assuntos, já que mais se perdeu do que se manteve...

E por lá aparecem Santo Antônio e Nossa Senhora da Saúde, colegas vindos da antiga missão de Itapicuru de Cima, a atual e conhecida Monte Santo. Nossa Senhora da Conceição da antiga Pambú, hoje Abaré. São João Batista vem de Rodelas. E o Bom Jesus da Glória, das minas e da missão de Jacobina. Nossa Senhora das Neves, vinda da “aldeinha” do Saí de Vila Nova da Rainha, a atual Senhor do Bonfim também chega. São Gonçalo vem do Salitre, hoje compreendido em Campo Formoso. Nossa Senhora das Brotas, vem de Jeremoabo. Outro Santo Antônio, o da Glória, chega do Curral dos Bois, hoje simplesmente Glória. Até a Santíssima Trindade, em uníssono, não deixou de abalar-se de Euclides da Cunha, onde estava a antiga missão de Massaracá, para juntar-se aos demais.

Todos sob uma espécie de santa coordenação da Nossa Senhora das Grotas, a mais velha e única nativa, nascida nas grutas às margens daquele mesmo rio e recebida nos braços do nativo kiriri-kaimbé para abençoar seu aldeamento. Foi ela que ali estava antes de todos os demais, e que apadrinha, desde então, a maior das atuais cidades daquelas paragens, Juazeiro.

Os demais eram todos estrangeiros, nascidos em terras europeias, na sua absoluta maioria. Mas, como antiguidade é posto, figurava a Maria das Grotas do Opará solene e respeitosa, do alto dos seus mais de três séculos no exercício de padroeira, desde que, em 1706, chegaram àqueles adustos sertões os primeiros franciscanos. Ao contrário do que se dera ao longo de todo o processo de colonização deste que era o mediterrâneo baiano dentro do mundus novus “descoberto” e colonizado por um luso projeto, não era, aqui, o estrangeiro que exercia a supremacia. Era a nativa e sertaneja, como sertanejos eram os “selvagens” a quem se pretendia salvar, as “páginas em branco” a se escrever a redenção cristã...

Mas, nesta bendita reunião, faltava uma... Por ali, nas barrancas nas quais se reúnem os oragos, à sombra de um grande umbuzeiro ornado por um etéreo pano branco, que caía-lhe da copa, não contou-se a presença da padroeira dos índios aricobés, Nossa Senhora da Piedade, da antiga missão de Aricobé, a ainda pequenina Angical atual. E, pronto, fez-se o santo burburinho...

Como podia uma santa faltar a uma de suas mais importantes obrigações? Como ousara desrespeitar uma convocação da Virgem das Grotas? Ecoavam tais indagações pelo vale do Grande Rio...

Bem, na verdade, “estes europeus” não tardariam em exercitar a sua soberba original, poderia pensar a padroeira mais antiga... Sim, pois era esta Virgem Maria germânica de nascimento, mas também italiana por adoção, como comprova a sua hagiografia, o que lhe garantiria os arroubos tanto esnobes quanto temperamentais que parecia demonstrar a santa, neste momento de tamanha rebeldia.

Os demais oragos, as demais padroeiras, “compatriotas” de Velho Mundo, pareciam aborrecer-se com a inadimplência da colega de ofício. Algumas ― sim, as do sexo (?) feminino ― já afirmavam veementemente ter percebido, há tempos, algo de estranho com a dita Pietá. Mas, nada de pecaminoso nisto: eram apenas celestes observações e não mundanas leviandades. A Senhora das Grotas, a essa altura, estaria tomada de ira, fosse a ira um sentimento permitido aos que integram a Legenda Áurea[ii]. Mas, com o adiantado do atraso e, por fim, com a efetiva ausência da santa de Aricobé, perguntava-se a superiora padroeira o que teria, de fato, acontecido...

E quando a inquietação já se assemelhava às aquelas dos sertanejos em dia de feira em época de chuva ― imaginem... ―, e o vai e vem de mantos e hábitos já derrubavam barrancas e faziam espumar as marolas antes tranquilas do rio, eis que surge o São Francisco de Assis em pessoa, ou melhor, em santidade.

Ele mesmo, criador da messe dos frades menores que para aquela região foram, tendo imperiosa e fundamental participação, com a proposta pacificadora ― e, sabemos nós do lado de cá ou debaixo, também política e econômica ― das missões, que muito contribuíram para abrandar parte dos choques étnicos e também de interesses que pontuaram o processo de colonização daquele rincão. O Velho Chico, sorrindo, como que já sabendo da resposta, pergunta-lhes o motivo de tamanha agitação.

E lá se foram os últimos traços do que havia de transcendental naqueles seres: ouviram-se vozes altas, irritadiças, brados até, que tratavam de dar-lhe conta do sumiço da santa dos aricobés.

E então, põe-se o Santo de Assis a contar a história daquela árida região de brava gente. Relembra que a sua árdua ocupação se deu em função de interesses econômicos claros: foram as entradas e bandeiras desbravadoras, foi o trânsito e comércio de gado, foi a exploração de minas. Tudo tendo o seu próprio rio e o labor dos homens comuns ― primeiro índios e depois escravos, submetidos a grande violência e subjulgados, muitas vezes ― como fator determinante. Isso, infelizmente, nem o grande padroeiro do sertão podia negar e, aliás, fez questão de torná-lo memória. Frutos nem sempre doces de certa aliança entre o Estado dos homens e a Igreja por estes mesmos homens, e que envenenaram os Guarani do sul desta América, os Inca das alturas andinas, os Maia e Asteca de Yucatán e tantos outros neste Novo Mundo, nem tão mais novo assim...

Mas, o momento não era de pesar e solenidade. Cultuar esta memória é preciso, é verdade, mas não era este o propósito, ali, naquele momento. São Francisco retoma, então, o motivo de todo o alvoroço: e Nossa Senhora da Piedade de Aricobé? Que é dela, afinal?

Já meio jocoso a essa altura, sarcástico poder-se-ia afirmar ― fosse igualmente o sarcasmo figura de estilo permitida aos santos ―, aplaca a curiosidade de todos ao explicar o que da santa havia sido:

― Não sabem mesmo o que aconteceu a Nossa Senhora da Piedade de Aricobé? Vós, que dos afetos terrenos querem tanto entender, mas que, de fato, deles nada parecem dominar?

E fizeram os santos oragos e padroeiros semblantes como que igualmente formados por surpresa, constrangimento e absoluta curiosidade...

― Pois lhes digo sem maior demora! ― disse o santo protetor dos animais e patrono da ecologia.

― Trocou o filho de Deus pelos filhos de Deus... ― E continuou: ― Por tudo que lhes tive que relembrar agora, deixou ela de ter piedade pelos verdadeiros donos dessa terra empossada, e passou a sentir suas próprias dores, por ser a eles solidária de fato. De Pietá, passou a Mater Dolorosa. Deixou de ser a Nossa Senhora da Piedade de Aricobé, para ser a Nossa Senhora das Dores dos aricobés. Deixou de ser europeia. “Naturalizou-se”.

E assim, contou São Francisco a história da Santa que seria materializada na imagem hoje celebrada na região do médio Rio São Francisco, como remanescente do período de missionação no sertão. Talhada por mãos nativas, de algum índio da tribo aricobé aldeada naquela missão franciscana, criada em 1747, relembra o martírio de um povo massacrado pela realidade da conquista da posse à qual a conquista do espírito quase exclusivamente justificava.

De traços pouco eruditos, que em nada se compara à imaginária de curvas sensualmente barrocas das reduções guaranis do Paraguai ou à suntuosamente ornada das missões franciscanas no México, a Nossa Senhora das Dores nativa, indígena, não ampara Jesus morto em seus braços, mas um índio aricobé em igual situação.

E quanto significado neste símbolo de paz e de bem[iii]...



[i] Esta é uma versão ficcional, em forma de conto, da origem da curiosa versão de Nossa Senhora das Dores da missão franciscana de Aricobé, no Médio São Francisco, na área do atual município baiano de Angical. Segundo se conta, a imagem teria sido esculpida por índios aricobés aldeados naquela missão. Na imagem de Aricobé, Nossa Senhora ampara um índio em seus braços e não o Senhor Jesus morto. O conto considera também a possível imprecisão hagiográfica em relação à imagem: Nossa Senhora das Dores é representada com o coração imaculado alvejado por sete espadas (ou apenas uma), enquanto que aquela que tem como atributo iconográfico o corpo do Senhor morto após o descimento da cruz é Nossa Senhora da Piedade.
[ii] A Legenda Áurea ou Lenda Dourada (em latim: legenda aurea ou legenda sanctorum) é uma coletânea de narrativas hagiográficas reunidas por volta de 1260 d.C. pelo dominicano e futuro bispo de Gênova Jacopo de Varazze e que se tornou sucesso durante a Idade Média.
[iii] Referência à saudação franciscana de “Paz e Bem”, que tem sua origem na vocação do envio dos discípulos que São Francisco descobriu no Evangelho e que ele incorpora à Regra dos Frades Menores: “o modo de ir pelo mundo”.

sábado, 6 de abril de 2013

AIKOS PERGUNTA: Qual o sentido de uma "marca de cerveja" para renomear a Arena da Fonte Nova?

Qual o sentido de uma "marca de cerveja" para renomear a Arena da Fonte Nova?
 


Se lhes perguntássemos qual o sentido de colocar como nome do antigo Estádio Otávio Mangabeira, popularmente e carinhosamente chamado de Fonte Nova, que foi demolido como um espetáculo para a edificação de um novo prédio para a Copa de 2014, o nome de uma marca de cerveja, o que responderiam? A “Marca de cerveja com o nome de uma cidade do interior do Rio de Janeiro” seria...?

a)    Um bom negócio tendo em vista os 35 anos de concessão?
b)    Uma provocação à sociedade e ao judiciário brasileiro?
c)    Um desejo ou a certeza de que a condição de excepcional se torne permanente?
d)    Todas as respostas estão certas?
 
Quem optou pela letra “d”, possivelmente se lembra do histórico recente que marcou as polêmicas relativas à construção do que agora se batiza como “Marca de cerveja com o nome de uma cidade do interior do Rio de Janeiro - Arena Fonte Nova”. Ou seja, se lembra de que apesar da mobilização popular, da viabilidade técnica para reformar o Estádio Otávio Mangabeira para atender as especificidades da Fifa – o que preservaria um importante exemplar da arquitetura modernista, assinada pelo reconhecido arquiteto Diógenes Rebouças e parte do patrimônio tombado, por um valor muito inferior do que foi gasto - a Fonte Nova foi posta ao chão como um espetáculo transmitido pelos canais televisivos. Ao escolher a “opção d”, lembrou-se ainda de que ao pagar um ingresso poderia assistir de camarote à materialização do enorme gasto de quase 700milhões de reais no Centro de Visitação da então chamada Nova Arena Fonte Nova.
Além desses dramas espetacularmente noticiados, de implosão do antigo estágio e anuncio do novo, quem marcou a letra “d”, reconhecia o arcabouço de excepcionalidades criado para as obras da Copa e os regimes especiais elaborados para responder as expectativas dos organizadores desse grande mundial de futebol. As obras da Copa foram isentas de tributação, o FGTs pôde ser usado para financiar as mega obras da Copa, a capacidade de endividamento municipal foi elastecida viabilizando a infraestrutura “necessária”. Quem marcou a última opção, lembrou ainda que existe em tramite um projeto de lei alterando significativamente o poder de reivindicação de algumas categorias de trabalho, o que praticamente inviabiliza o direito de greve desses trabalhadores, dentre outras mudanças legais apresentadas como transitórias e limitadas no tempo. Mudanças do corpo legal que foram elaboradas e justificadas como excepcionalidades singularizando o seu uso “unicamente” para a Copa, sendo algumas também válidas para as Olimpiadas de 2016.

Por fim, quem optou por responder que “Todas as respostas estão certas“ provavelmente recordou que a nossa “seleção...” e outros nomes, agora têm dono: passam a propriedade da CBF-Fifa. Novas leis para a Copa, além de determinarem que a propriedade dessas expressões tão nossas, que como a “Fonte Nova”, não nos pertencem mais, regulamentam também, entre outros assuntos, o domínio sobre o território no entorno do novo estádio, num raio de 2km nos dias de jogos. Salvador receberá quatro jogos da primeira fase, um jogo das oitavas de finais e um das quartas de final do grande mundial de futebol. Em um dos mais caros estádios construídos para esse evento, não temos a certeza de poder degustar um acarajé ou de escolher a bebida de acompanhamento, mas contamos com grande probabilidade de que os jogadores brasileiros não pisem nesses gramados.

Quem marcaria a letra “d” lembrou ainda que depois de muita polêmica, a venda de bebidas alcoólicas durante os jogos do mundial de futebol em 2014 foi garantida. Assim, inserir no nome de um dos estádios mais caros da Copa de 2014 a marca de uma cerveja, mediante o contrato de 10 anos, no valor de 100 milhões de reais, renovável por mais 10 anos, é sem dúvida “um bom negócio tendo em vista os 35 anos de concessão” (opção a) para as empresas responsáveis pelo consórcio. No entanto, dar o nome de uma marca de cerveja à antiga Fonte nova é também “uma provocação à sociedade e ao judiciário brasileiro” (opção b) e “um desejo ou a certeza de que a condição de excepcional se torne permanente” (opção c).

Na mesma semana em que o estádio ganhou o nome de “Marca de cerveja com o nome de uma cidade do interior do Rio de Janeiro - Arena Fonte Nova” a imprensa internacional ironizou a grafia “entrace” em lugar de “entrance[1] na placa que foi instalada ao lado da sinalização de “saída”. Que outros sentidos o nome “Marca de cerveja com o nome de uma cidade do interior do Rio de Janeiro - Arena Fonte Nova” pode ter ou terá?














[1] Grafia correta para “entrada” em inglês.